Risco e Governança

Braskem e Ambipar: quando o risco ESG vira perda financeira

Por Helena Gurgel · · 5 min de leitura
Caminhões da Ambipar e planta industrial da Braskem — risco ESG que virou perda financeira
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Durante muito tempo, risco ESG foi tratado como algo abstrato. Um tema de relatório, de reputação, de longo prazo.

Dois casos brasileiros recentes mostram o contrário. Um começou no E, outro no G. Os dois terminaram no mesmo lugar: no balanço.

Braskem: o risco ambiental que levou décadas para aparecer

A extração de sal-gema em Maceió provocou o afundamento do solo em bairros inteiros da cidade. Milhares de famílias precisaram deixar suas casas, e o caso se tornou uma das maiores tragédias socioambientais urbanas do país.

O impacto financeiro veio em camadas. A empresa registrou provisões bilionárias ligadas ao evento geológico de Alagoas, com um único exercício reconhecendo cerca de R$ 6,9 bilhões. Em 2023, fechou um acordo de aproximadamente R$ 1,7 bilhão com a Prefeitura de Maceió. Em 2025, outro acordo de R$ 1,2 bilhão com o governo de Alagoas — valor contestado por associações de vítimas, que apontavam estimativas de dano muito maiores.

Em agosto de 2026, a Braskem pediu recuperação extrajudicial. A empresa afirma que a medida tem escopo financeiro e não afeta as indenizações de Maceió. Ainda assim, o caso deixa uma lição clara: um risco ambiental não gerido não desaparece. Ele se acumula, e um dia vira passivo.

Ambipar: quando a governança falha, nem o “verde” protege

A Ambipar era uma das ações mais celebradas da bolsa, com valorização de mais de 1.000% em 2024. Uma empresa de gestão ambiental, com certificação de ações verdes e emissão de títulos sustentáveis.

Em 2025, tudo mudou rapidamente. Uma crise de liquidez ligada a operações financeiras — incluindo derivativos aprovados pelo conselho e contestados pelo mercado — levou ao rebaixamento da empresa para default e ao pedido de recuperação judicial em outubro. As ações acumularam queda de cerca de 97% no ano, segundo a imprensa. A companhia foi excluída dos índices da B3 e perdeu a certificação de ações verdes.

Analistas apontaram uma ruptura na capacidade de gerenciar liquidez e governança. Parte das operações ainda está sendo esclarecida na Justiça.

O ponto mais importante: era uma empresa do setor ambiental. O problema não estava no E. Estava no G.

O que os dois casos ensinam

  1. Risco ESG é risco financeiro, só que com atraso. Nos dois casos, os sinais existiam muito antes de a perda aparecer no balanço. O intervalo entre o sinal e o prejuízo é exatamente a janela em que ainda dá para agir — e é ela que a maioria das empresas desperdiça.
  2. Não existe “empresa ESG” por setor. Atuar com meio ambiente não protege uma empresa de falhas de governança. ESG não é o que a empresa faz. É como ela decide.
  3. O mercado financeiro já entendeu isso. Gestoras de crédito vêm citando exatamente esses casos para explicar por que ESG ficou mais importante, e não menos, na decisão de quem recebe crédito e a que custo. É a mesma leitura que já comentei aqui quando escrevi que ESG não deixou de ser tendência: mudou de lugar.
ESG não é o que a empresa faz. É como ela decide.

Por que isso não é só assunto de grande empresa

É tentador ler esses dois casos como problema de companhia de capital aberto. Não é. A diferença entre a Braskem, a Ambipar e uma empresa de médio porte não está na existência do risco — está em quem o enxerga primeiro.

Uma empresa que não sabe de onde vêm suas emissões, que não tem linha de base, que não acompanha indicador nenhum, está exatamente na mesma posição: acumulando exposição sem medir. A diferença é que o balanço dela ainda não cobrou a conta. É por isso que insisto que sustentabilidade não é custo, e sim gestão de risco, e que compromisso sem indicador não vira gestão.

Na prática, começar a enxergar é mais simples do que parece: mapear onde o negócio depende e onde impacta, medir o que hoje é só estimativa — um inventário de emissões bem feito é um bom primeiro passo — e levar isso para a mesa onde as decisões acontecem, não para o anexo do relatório.

A pergunta que fica

Sua empresa sabe quais riscos ambientais, sociais e de governança estão se acumulando hoje, mesmo que ainda não apareçam no resultado?

Porque, como esses dois casos mostram, quando o risco aparece no balanço, geralmente já é tarde para gerenciá-lo. E ainda dá tempo para quem começa a medir agora.

Se a sua empresa ainda não fez a primeira medição, escrevi um guia gratuito com o caminho completo, dos três escopos ao relato. Ele está disponível para download aqui.

HG
Helena Gurgel Consultoria ESG · Doutora em Oceanografia · Frameworks GRI e TCFD

Quais riscos ESG a sua empresa está acumulando sem perceber?

Vamos mapear onde o seu negócio está exposto — ambiental, social e de governança — enquanto ainda dá tempo de gerenciar, e não só de pagar a conta.

Vamos conversar