Cadeia de Valor

Due diligence ESG de fornecedores: como avaliar a cadeia de valor na prática

Por Helena Gurgel · · 7 min de leitura
Avaliação de fornecedores e rastreabilidade na cadeia de valor — due diligence ESG
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Quando um problema aparece na cadeia de fornecedores, o nome que vai para a manchete raramente é o do fornecedor. É o da empresa que comprou dele.

É por isso que a due diligence ESG de fornecedores deixou de ser assunto só de multinacionais e passou a fazer parte da rotina de empresas de todos os tamanhos. Neste artigo, explico o que ela é, por que ficou urgente e como fazer na prática, sem complicação.

O que é due diligence ESG de fornecedores

Due diligence é a diligência devida: o cuidado que se espera de uma empresa antes e durante uma relação comercial. Na versão ESG, significa identificar, prevenir e reduzir riscos ambientais, sociais e de governança que existem na cadeia de fornecimento — como trabalho análogo à escravidão, desmatamento, corrupção e descumprimento de normas ambientais.

A principal referência internacional é o Guia de Due Diligence para Conduta Empresarial Responsável, da OCDE. A ideia central do guia é simples: due diligence não é um questionário enviado uma vez. É um ciclo de gestão, que se repete e melhora a cada rodada.

Por que o tema ficou urgente

A responsabilidade não termina no contrato

Em 2023, 207 trabalhadores foram resgatados de condições degradantes em Bento Gonçalves (RS). Eles eram contratados por uma empresa terceirizada que prestava serviço a três vinícolas da Serra Gaúcha. As vinícolas assinaram um acordo de R$ 7 milhões com o Ministério Público do Trabalho, com 21 obrigações para disciplinar a contratação de terceirizados.

O recado ficou claro: terceirizar o serviço não terceiriza a responsabilidade. É a mesma lógica que comentei ao escrever sobre como o risco ESG vira perda financeira — o risco não desaparece por estar na ponta de fora do contrato.

A Lista Suja continua crescendo

Em 6 de outubro de 2026, o Ministério do Trabalho e Emprego incluiu 82 novos empregadores no Cadastro de Empregadores que submeteram trabalhadores a condições análogas à de escravo — a chamada Lista Suja. Os novos casos envolvem 553 trabalhadores.

Entre as atividades que mais aparecem estão a criação de bovinos, a produção de carvão vegetal, a produção de café e a construção civil — setores presentes na cadeia de muitas empresas.

O mercado externo passou a exigir

O Regulamento Europeu sobre Desmatamento (EUDR) passa a valer em 30 de dezembro de 2026 para médios e grandes operadores, e em 30 de junho de 2027 para micro e pequenos. Quem vende soja, carne bovina, café, cacau, óleo de palma, borracha ou madeira para a União Europeia vai precisar comprovar que o produto não vem de área desmatada depois de 31 de dezembro de 2020, com rastreabilidade até a origem.

Além disso, a diretiva europeia de due diligence (CSDDD), revisada em 2026, vai exigir a partir de julho de 2029 que grandes empresas avaliem riscos ao longo da cadeia. Na prática, essas empresas vão cobrar informações dos seus fornecedores, inclusive dos brasileiros — movimento parecido com o que já aconteceu quando a Europa mexeu nas regras de relato de sustentabilidade.

As emissões também estão na cadeia

Segundo o CDP, as emissões da cadeia de suprimentos das empresas são, em média, 26 vezes maiores que as das operações diretas. Quem quer reduzir o Escopo 3 do inventário de emissões precisa conhecer — e engajar — os próprios fornecedores.

Como fazer due diligence de fornecedores na prática: 6 passos

  1. Mapeie a cadeia e priorize pelo risco. Liste os fornecedores e classifique cada um por dois critérios: criticidade (volume de compra e dependência do negócio) e risco inerente (setor, região e tipo de atividade). Não é preciso avaliar todos com a mesma profundidade. Comece pelos críticos e pelos de maior risco.
  2. Deixe claro o que a empresa espera. Um código de conduta para fornecedores, simples e objetivo, define o mínimo inegociável: nada de trabalho infantil ou análogo à escravidão, saúde e segurança no trabalho, licenças ambientais em dia e tolerância zero à corrupção. Esses critérios devem entrar também nos contratos.
  3. Colete informações e cruze com bases públicas. Use um questionário proporcional ao risco do fornecedor e peça os documentos que comprovam o que foi declarado. Depois, cruze as respostas com bases públicas que qualquer empresa pode consultar hoje:
    • Cadastro de Empregadores (Lista Suja), do Ministério do Trabalho e Emprego;
    • consulta de áreas embargadas do Ibama;
    • CEIS e CNEP, no Portal da Transparência, que reúnem empresas inidôneas, suspensas e punidas;
    • certidões negativas de débitos trabalhistas, fiscais e ambientais.
    Para commodities que vão para a Europa, inclua a rastreabilidade da origem, com a localização das áreas de produção.
  4. Classifique e decida. Com as informações em mãos, classifique cada fornecedor em risco baixo, médio ou alto. Cada nível leva a uma decisão: aprovar, aprovar com plano de ação ou não contratar.
  5. Desenvolva, não apenas exclua. Cortar um fornecedor nem sempre resolve. Muitas vezes, só transfere o problema para outro comprador. O guia da OCDE trata o desligamento como último recurso e prioriza prevenir e corrigir. Um plano de ação com prazos e apoio costuma gerar mais impacto real, principalmente com fornecedores pequenos.
  6. Monitore e comunique. Reavalie os fornecedores críticos periodicamente, faça verificações por amostragem e mantenha um canal de denúncia acessível também para trabalhadores da cadeia. Acompanhe indicadores simples, como o percentual de fornecedores críticos avaliados e de planos de ação concluídos. Esses dados alimentam o relatório de sustentabilidade — por exemplo, nos indicadores GRI 308 e GRI 414, de avaliação ambiental e social de fornecedores.
Na cadeia de valor, a responsabilidade não termina no contrato.

Erros comuns

Por onde começar

Para uma empresa de médio porte, o primeiro ciclo não exige um sistema caro. Uma lista dos fornecedores críticos, um código de conduta claro e a consulta às bases públicas já mudam o nível de controle sobre a cadeia. A partir daí, o processo amadurece a cada rodada.

Sua cadeia de fornecedores também conta a história da sua empresa. A due diligence é o que garante que essa história seja a que você quer contar.

Fontes

HG
Helena Gurgel Consultoria ESG · Doutora em Oceanografia · Frameworks GRI e TCFD

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