A notícia, à primeira vista, parece só boa: a Comissão Europeia acaba de adotar a versão final revisada dos ESRS — as normas europeias de relato de sustentabilidade — e cortou os indicadores exigidos em 61%.
Menos dados. Menos burocracia. Menos custo. Para muita gente, isso soa como alívio.
Mas eu li essa notícia de outro jeito. E acho que vale a pena a gente conversar sobre ela.
O que mudou, na prática
A revisão faz parte do pacote de simplificação (o chamado Omnibus) da Diretiva de Relato de Sustentabilidade, a CSRD. Além de cortar mais da metade dos pontos de dado, a nova versão elevou o corte de quem é obrigado a reportar: agora entram no escopo empresas com mais de 1.000 funcionários e mais de €450 milhões de faturamento. Para as menores, o relato passa a ser voluntário, com um padrão próprio e mais simples.
Na leitura rápida: menos empresas obrigadas, e as que continuam obrigadas precisam relatar menos coisa.
Por que isso importa aqui no Brasil
Você pode pensar: "mas isso é lá na Europa". Não é só.
Primeiro, porque muita empresa brasileira está na cadeia de fornecimento de empresas europeias — e o que a Europa exige (ou deixa de exigir) chega até aqui. Segundo, porque essa onda de simplificação não é exclusiva de lá. Aqui, a própria CVM tornou voluntário, em 2026, o relatório nos padrões internacionais que antes seria obrigatório para as companhias abertas.
Ou seja: o movimento é o mesmo dos dois lados do Atlântico. A régua da obrigação está afrouxando.
Menos obrigação não significa menos responsabilidade. E, principalmente, não significa menos importância.
O risco de ler isso como "posso parar"
É aqui que mora o perigo. Tem empresa que vai olhar para essa flexibilização e concluir: "ótimo, então posso desacelerar a agenda ESG".
Seria um erro estratégico. Porque quem cobra sustentabilidade não é só o regulador. É o investidor, que analisa risco. É o cliente, que escolhe fornecedor. É o banco, que precifica crédito. É o mercado, que decide reputação. E nenhum deles revogou nada.
A regulação define o mínimo. A competitividade define o resto.
O que as empresas líderes vão fazer
Na minha experiência, a simplificação é, na verdade, uma oportunidade — para quem souber usá-la. Menos indicadores obrigatórios significa mais espaço para focar no que é material: os temas que de fato movem o negócio, em vez de preencher planilha por obrigação.
A empresa madura não pergunta "quanto o mínimo me obriga a relatar?". Ela pergunta "o que eu preciso demonstrar para continuar sendo confiável para quem decide sobre mim?".
Relatar deixou de ser sobre cumprir uma norma. Passou a ser sobre construir credibilidade com evidência — dados, metodologia e transparência. E isso continua valendo, com ou sem exigência.
A régua da obrigação mudou. A régua da credibilidade, não.

