Relatórios & Regulação

A Europa simplificou os relatórios de sustentabilidade. E agora?

Por Helena Gurgel · Julho de 2026 · 5 min de leitura
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A notícia, à primeira vista, parece só boa: a Comissão Europeia acaba de adotar a versão final revisada dos ESRS — as normas europeias de relato de sustentabilidade — e cortou os indicadores exigidos em 61%.

Menos dados. Menos burocracia. Menos custo. Para muita gente, isso soa como alívio.

Mas eu li essa notícia de outro jeito. E acho que vale a pena a gente conversar sobre ela.

O que mudou, na prática

A revisão faz parte do pacote de simplificação (o chamado Omnibus) da Diretiva de Relato de Sustentabilidade, a CSRD. Além de cortar mais da metade dos pontos de dado, a nova versão elevou o corte de quem é obrigado a reportar: agora entram no escopo empresas com mais de 1.000 funcionários e mais de €450 milhões de faturamento. Para as menores, o relato passa a ser voluntário, com um padrão próprio e mais simples.

Na leitura rápida: menos empresas obrigadas, e as que continuam obrigadas precisam relatar menos coisa.

Por que isso importa aqui no Brasil

Você pode pensar: "mas isso é lá na Europa". Não é só.

Primeiro, porque muita empresa brasileira está na cadeia de fornecimento de empresas europeias — e o que a Europa exige (ou deixa de exigir) chega até aqui. Segundo, porque essa onda de simplificação não é exclusiva de lá. Aqui, a própria CVM tornou voluntário, em 2026, o relatório nos padrões internacionais que antes seria obrigatório para as companhias abertas.

Ou seja: o movimento é o mesmo dos dois lados do Atlântico. A régua da obrigação está afrouxando.

Menos obrigação não significa menos responsabilidade. E, principalmente, não significa menos importância.

O risco de ler isso como "posso parar"

É aqui que mora o perigo. Tem empresa que vai olhar para essa flexibilização e concluir: "ótimo, então posso desacelerar a agenda ESG".

Seria um erro estratégico. Porque quem cobra sustentabilidade não é só o regulador. É o investidor, que analisa risco. É o cliente, que escolhe fornecedor. É o banco, que precifica crédito. É o mercado, que decide reputação. E nenhum deles revogou nada.

A regulação define o mínimo. A competitividade define o resto.

O que as empresas líderes vão fazer

Na minha experiência, a simplificação é, na verdade, uma oportunidade — para quem souber usá-la. Menos indicadores obrigatórios significa mais espaço para focar no que é material: os temas que de fato movem o negócio, em vez de preencher planilha por obrigação.

A empresa madura não pergunta "quanto o mínimo me obriga a relatar?". Ela pergunta "o que eu preciso demonstrar para continuar sendo confiável para quem decide sobre mim?".

Relatar deixou de ser sobre cumprir uma norma. Passou a ser sobre construir credibilidade com evidência — dados, metodologia e transparência. E isso continua valendo, com ou sem exigência.

A régua da obrigação mudou. A régua da credibilidade, não.

HG
Helena Gurgel Consultoria ESG · Doutora em Oceanografia · Frameworks GRI e TCFD

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